A Geada Negra, que completa 50 anos nesta sexta-feira, permanece viva na memória de muitos agricultores e moradores do Paraná. Em 18 de julho de 1975, o dia parecia comum, mas logo pela manhã, ao observar o pasto, muitos se depararam com uma cena inusitada: o gelo se espalhando pelo chão, causado pela severa geada negra. Esse fenômeno climático afetou diretamente a agropecuária do Paraná, principalmente a cultura do café, que até então era a principal atividade agrícola do estado.
Naquele ano, o Paraná era o maior produtor de café do Brasil, e a região, conhecida por seus cafezais, viu sua principal fonte de renda ser dizimada. Após a geada, a produção de café caiu drasticamente. Na safra seguinte, a participação do estado na produção nacional despencou de 48% para apenas 0,1%. Para muitos, a geada negra marcou o fim de um ciclo importante para a economia local e para o interior do estado.
A geada negra é um fenômeno raro, causado por uma combinação de frio extremo e ar seco, que afeta as plantas de forma interna, congelando sua seiva e destruindo os tecidos vegetais. Ao contrário da geada branca, que deixa cristais de gelo visíveis, a geada negra não apresenta sinais externos e mata as plantas por dentro, o que dificultou a recuperação das lavouras de café. O impacto foi tão severo que muitas famílias precisaram abandonar a cafeicultura e procurar alternativas.
O cultivo de soja foi uma das principais saídas para os agricultores, e, anos depois, essa cultura tomou o lugar do café, ocupando as vastas áreas antes dedicadas ao grão. A soja, que em 1976 ocupava cerca de 2,2 milhões de hectares, se espalhou rapidamente pela região, que hoje dedica mais de 5,8 milhões de hectares à sua produção. Isso representou uma verdadeira transformação para a agropecuária paranaense, que deixou de ser predominantemente voltada para o café e passou a focar no cultivo de grãos.
Além da mudança nas lavouras, a região também lembra o impacto social do fenômeno. A geada negra acelerou o êxodo rural, com muitas famílias deixando o campo em busca de melhores condições de vida nas cidades. Esse movimento transformou ainda mais a paisagem agrícola do interior do Paraná, que viu a cafeicultura ser substituída por outras culturas, como a soja e o milho.
Passadas cinco décadas, a região continua a lembrar da tragédia que a geada negra causou, mas também da resiliência dos agricultores que conseguiram se adaptar às novas realidades. Hoje, o Paraná é um dos maiores produtores de soja do Brasil, mas a memória daquele dia de 1975 ainda persiste nas histórias contadas pelos mais velhos e nas marcas deixadas nos campos. A geada negra, apesar de ter causado enormes perdas, abriu caminho para um novo ciclo na agricultura do estado, que se reinventou e se tornou uma referência no setor agropecuário.
